Dor

Enxaqueca que não melhora com remédio: o que mais pode ser feito

Quando o analgésico não resolve mais a enxaqueca, o problema pode estar no tipo de tratamento, na dose, no tempo de uso ou no diagnóstico. Entenda o que investigar.

19 de setembro de 2026 · Dra. Camila Lobo · 7 min de leitura

PorDra. Camila Lobo· CRM-PA 13195 · RQE 9422 · RQE 9446

Você tem uma caixa de comprimido na bolsa, sabe de cor qual age mais rápido e ainda assim perde dias no escuro. A cada crise o remédio parece funcionar menos, e a sensação é de que não sobrou o que tentar.

Quando a enxaqueca não melhora com remédio, quase sempre existe uma explicação concreta antes de se falar em caso sem solução: o tratamento usado é de crise e não de prevenção, a dose ou o tempo de uso foram insuficientes, o analgésico está sendo tomado com frequência alta o bastante para piorar a dor, ou o diagnóstico não é só enxaqueca. Cada uma dessas situações tem uma conduta diferente, e é por isso que a avaliação vem antes de qualquer nova receita. Existem também recursos que não passam pelo comprimido, como bloqueios anestésicos, toxina botulínica, medicações injetáveis de prevenção e neuromodulação.

O que você toma é tratamento de crise ou de prevenção?

São coisas diferentes, e confundir as duas é o motivo mais comum de alguém achar que “já tentou tudo”. O tratamento de crise age no episódio que já começou: analgésicos, anti-inflamatórios, triptanos, remédios para náusea. Ele encurta a dor do dia, e não muda quantas crises você vai ter no mês seguinte.

O tratamento preventivo reduz a frequência e a intensidade das crises ao longo do tempo, e é tomado todos os dias, mesmo nos dias sem dor. Envolve classes que não são analgésicos, como certos antidepressivos, anticonvulsivantes e medicações para pressão, escolhidos conforme o seu quadro, as outras doenças que você tem e os efeitos que você tolera. Quem tem crises frequentes e usa só tratamento de crise está apagando incêndio sem mexer no que acende o fogo. A pergunta a levar para a consulta: existe um preventivo no meu tratamento, em qual dose, e há quanto tempo?

Por que o analgésico pode estar piorando a sua dor de cabeça?

Existe um fenômeno bem descrito, a dor de cabeça por uso excessivo de medicação. Quando o remédio para crise é usado com frequência alta por mais de três meses, o cérebro fica mais sensível à dor, e a enxaqueca que aparecia algumas vezes por mês passa a aparecer quase todo dia.

Os limites de referência são concretos: analgésicos simples em 15 dias ou mais por mês, ou triptanos, analgésicos combinados, derivados do ergot e opioides em 10 dias ou mais por mês. Vale contar dias de uso, não comprimidos.

O ponto delicado é que o remédio continua aliviando cada crise, então faz todo sentido tomar de novo. A saída não é sofrer sem nada: é um plano em que o preventivo entra, a retirada do excesso é organizada com acompanhamento, e a crise ganha um resgate com limite de dias definido.

Quanto tempo leva para saber se um tratamento preventivo funcionou?

Mais do que a maioria imagina, e essa expectativa errada faz muita gente abandonar um tratamento que ainda ia funcionar. Um preventivo precisa chegar à dose adequada e ser mantido por cerca de 8 a 12 semanas antes de se julgar o efeito, porque o ajuste é gradual, para reduzir efeitos indesejados.

O critério de sucesso também não é dor zero: busca-se menos dias de dor por mês e crises menos intensas, com menos necessidade de resgate, e isso varia de pessoa para pessoa. Para essa conta existir, o registro importa. Um diário simples, com os dias de dor e cada dia em que você tomou algo, transforma “acho que piorou” em informação que orienta a decisão.

Será que o problema é só enxaqueca?

Nem toda dor de cabeça que não responde ao remédio de enxaqueca é enxaqueca resistente. A dor cervicogênica nasce em articulações e músculos da coluna cervical e costuma irradiar da nuca para a região atrás do olho, em geral de um lado só, com piora ao movimentar o pescoço. A neuralgia occipital dá pontadas em choque no trajeto do nervo occipital, com o couro cabeludo sensível ao toque. E há casos em que a enxaqueca convive com apneia do sono, bruxismo ou uso de medicações que causam dor de cabeça como efeito.

É por isso que a avaliação começa pela história detalhada das crises e pelo exame físico, incluindo o pescoço. Exame de imagem não é rotina em dor de cabeça: ele é pedido quando algo na história ou no exame indica necessidade.

O que existe além do comprimido?

Quando o tratamento oral bem conduzido não bastou, ou quando os efeitos colaterais impedem chegar à dose necessária, a medicina da dor tem recursos que agem por outras vias.

Os bloqueios anestésicos depositam medicação junto a nervos específicos, como o occipital, e servem tanto para interromper um período de crises encadeadas quanto para esclarecer de onde vem a dor. A toxina botulínica é um preventivo consolidado para enxaqueca crônica, aplicada em pontos definidos da cabeça e do pescoço em consultório, com repetição a cada cerca de 12 semanas. As medicações injetáveis que atuam no CGRP, substância envolvida na crise, são uma opção preventiva mais recente, de uso mensal ou trimestral. E a neuromodulação é considerada em quadros de difícil controle, quando outras linhas já foram tentadas.

Nenhuma delas é indicada pelo nome, e sim pelo seu caso: quantos dias de dor você tem, o que já foi tentado e por quanto tempo, o que você pode tolerar. A página sobre tratamento de enxaqueca reúne os critérios dessa escolha.

Quando não vale esperar a próxima crise?

Alguns sinais pedem avaliação sem postergar: dor súbita e muito intensa, dor que começa depois dos 50 anos, mudança clara no padrão da dor que você conhece, febre ou rigidez de nuca, perda de força, alteração da fala ou da visão que não passa, dor que piora ao tossir ou ao se deitar, ou dor após trauma na cabeça.

Fora desses casos, o marcador é o impacto. Se você conta os dias do mês pela dor, ou se o remédio virou rotina quase diária, há o que investigar e o que fazer. Agende uma avaliação no Instituto Rile, em Belém, para entender o que está sustentando as suas crises antes de tentar o próximo comprimido.

Conteúdo educativo do Instituto Rile · Belém-PA. Não substitui a consulta médica.

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